Gabriela Rangel

Artista Plástica

 

       Textos : trechos de texto de Márcio Sampaio - jornalista, escritor, critico de Arte e pintor, sobre a artista

 e de Ronan Couto professor de História da Arte - Escola Guignard/UEMG -Metre em Educação e Linguagem FAE/UFMG

 

 

Sombra não é Corpo"

Márcio Sampaio

O artista vive na tela o projeto de formular sua coerência - aventura de transformar o espaço em estado, para fazer prevalecer o sentido de permanência onde tudo é precário , efêmero. Nesse embate, quando a forma se manifesta em processo contínuo de dispersão e fragmentação, o artista reconstitui um sentido de integridade dentro de um mundo imperfeito.

Esse labor contínuo, guiado por um agudo poder de percepção , produz, por outro lado, uma espécie de liberdade errática, aquela capacidade de disparar os comandos da intuição, que sem o empenho da seleção, a tudo acerta e a tudo sujeita para a configuração do lugar de sentido e prazer, invenções,alusões e delusão , compõe em diferentes instâncias as cargas seminais do projeto artístico, no qual , tudo se torna possível, até mesmo a incoerência de se tornar possível a leitura do real.

É nessa escala que a produção recente de Gabriela Rangel dispersa a sombra e ganha corpo de sentido. Não será por pura literatura que ela recorre a textos - forte presença no campo de sua obra  - disseminando dúvidas e muitas vezes perturbando a leitura linear da forma desenhada. Ser ou não pintura - não está aí a questão dessa obra surpreendente.

O eixo de sua expressão se inclina  perigosamente para várias direções cardeais, sob fortes ventos da angústia e do desconforto provocados nesse processo de revolver a realidade, reconstruindo antigas experiências. Se há que revolvê-la envolve-la capturá-la e lavá-la em claras águas para devolvê-la com sentido ,essa função da arte não reconstitui o mundo,muito menos nos restitui

 a nossa leitura, em um estado de plena planura, mas envolta na inquietante névoa do mistério.

Deleitar-se com a intensidade desta impregnação de mistério? Seria temeridade. A orgânica desorganização do espaço externo da obra, a superfície do desenho - pintura, retém em seu interior a mesma integridade estrutural de um campo de biodiversidade A obra de Gabriela tem um sentido e outro sentido.

                                         

 

A banalidade do ambiente que a artista repõe na tela,com sua confusa acumulação de coisas forjadas e roubadas do mundo do consumo e do mundo do sonho, do mundo natural e cultural desse fim de milênio, fere-nos com suas questões aparentemente insolúveis: o amor, a morte,a liberdade, a solidão, o desejo, o prazer,o medo, a violência,a doçura.O que quer que seja pontual nesse roteiro de insana travessia ( a obra é o corpo de nossa sombra errática) contém um perigoso desafio. Gabriela simplesmente o enuncia como involuntário porta voz da esfinge.

A artista o enuncia sem poder renunciar ao combate no ato da criação ela própria tem que protagonizar por nós. Mesmo que simuladamente (a arte não é simulacro?) Há de criar na própria obra as respostas, ou possibilidades de respostas, forjar e anunciar possíveis soluções.

Na obra de Gabriela, essa resposta retém mais uma questão: a artista simplesmente abre outra arca - a caixa de Pandora - que faz jorrar, se não as sombras de nossas obsessões, pelo menos o cor/ação de nossas secretas ambições, potencializando as cargas emotivas e suas ressonâncias em nosso roteiro.

Aqui, porém, Pandora não se envolve em trevas, mas em perturbadoras luzes que fazem projetar na tela as siluetas das coisas, com suas aparências ambíguas e seus dolorosos (e às vezes, gozosos) mistérios. Tantas coisas são tantas coisas. No espelho, servil é livres (assim, com a pluralidade do estado de plenitude); mas a sombra (não o reflexo) de liberdade é liberdade. E então chegaremos à caverna de Platão?

Ao fecharmos o círculo de leitura da obra de Gabriela, outro se abre. Que cada um faça o seu roteiro. Mas cuidado: sombra não é corpo; também, sombra não é sobra.

                                                             

Trechos de texto  de Ronan Couto sobre a artista

.....Influenciada pelo pai pintor e a mãe gravadora,Gabriela Rangel ( Ouro Preto 1969 ) sempre teve os olhos atentos para os elementos formadores da visualidade que a cerca.

O desejo de apropriar-se das imagens da realidade em todas as suas nuanças,levou-a a estudar na Fundação de Arte de Ouro Preto ( FAOP ) e mais tarde entre os anos de 1987 a 1991, na Escola de Belas Artes da UFMG. Nesse processo, entre as linguagens das artes plásticas, escolheu o desenho, tornou-se professora na FAOP e montou um ateliê em Ouro Preto, cidade que dispensa qualquer comentário que a justifique como território fértil para um artista viver.................

..................Gabriela tem compreendido que produzir arte ( artes plásticas ) é dar visibilidade a pensamentos e sensações, traduzidos em linguagem imagética, onde se espera que o leitor elabore para si mesmo sentidos inéditos. (Ronan Couto)

 

 

 

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