Nello Nuno

 

1939 - 1975  

 

  

 

 

trechos de texto de Márcio Sampaio - jornalista, escritor, critico de Arte e pintor, sobre o artista

publicado na revista Telas e Arte - nº 20

 

 

 

         

 

Sacada e velocípede - óleo s/ tela) 1974 -coleção Eli Bonini

 

Uma Poética do Cotidiano

O espaço de posse,espaço defendido contra forças adversas,o espaço amado,que determina 

o valor humano, onde encontramos a palavra esquecida ou rejeitada: a alma, possui uma luz interior,aquela que uma '"visão interior", conhece 

e expressa no mundo das cores deslumbrantes,

 no mundo de luz e sol...

Gaston Bachelard (cit. Rilke), "Poética do Espaço"

Flor sol - 1966 (óleo s / eucatex) 1971- coleção BDMG

 

.....Para situar Nello Nuno no contexto da Arte Mineira é 

preciso antes anotar que sua formação se deu fora das Escolas de Arte, embora desde cedo freqüentasse o ambiente artístico da cidade. Mas ele pertence a uma geração de artistas mineiros que vai se firmar a partir de 1962, ano da morte de Guignard, no momento em que começa a delinear-se uma nova atitude em relação à   forte influencia exercida na década anterior pelo grande mestre. Descortinavam-se novos horizontes por uma fresta aberta na parede das montanhas, facilitada pelo trânsito  

de informações, pelo diálogo com artistas e críticos de outros centros, ao mesmo tempo em que se revelavam,  para os olhos de fora, com uma surpreendente produção atualizada e inventiva..........

 

......Dentro deste mesmo espaço, Nello Nuno haveria de construir o edifício para abrigar suas invenções. E é nesse espaço que produz seu próprio argumento, mais refinado e eloqüente, com que afirmará sua perenidade, que a morte precoce não conseguirá corromper. Ele sabe que a alma, possui uma luz interior,aquela que 

uma "visão interior"conhece e expressa no mundo das cores deslumbrantes, no mundo de luz  e sol....que não se submete à degradação contingêncial , porque é um ser de vida que, por ser experiência antecipada, já se acha, 

em plenitude, aninhada no futuro.............

..........É tempo de registrar com a pintura, aqueles momentos felizes, a família reunida, a mulher Annamélia,

na beleza sensual e afetiva de sua presença, e da sua generosa maternidade,os filhos em seus movimentos de alegrias e despreocupação; a casa sempre aberta para

 acolher os visitantes,o ateliê repleto de cores e coisas,

as obras em processo, com sua palpitação viva e fluida.

A paisagem ouro-pretana entrevista pela porta e pelas janelas, fazendo coar uma luz absurda, e as cores da imaginação prodigiosa.........

 

Interior da casa do artista - óleo s / tela 1971

 

 

Árvore da vida - óleo s / tela 1974 - coleção Fernando Diniz

 

 

Casas de Ouro Preto óleo s / tela 1975

 ......... as paisagens de Ouro Preto vão gradativamente se depurando, num processo de simplificação, que, 

sem perder a referencia do real, vai se tornar em um campo de cor, uma quase abstração. A silhueta das casas

 e montanhas, contrastam  em verde e vermelho, confundindo o que é forma e fundo: as vertentes dos telhados confundem-se com as encostas do morro , sequenciam-se quadrados e retângulos, em sensível composição, estabelecendo um ritmo que nos convida um caminhar por esta paisagem reinventada , na qual a natureza se instala,. Essa que é a  esplêndida organização de formas . sobre uma estrutura poética , que não retrata o real, mas nos torna visível os seus mais intensos mistérios.

 

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